Atividades suspensas, hospitalizações e autuações milionárias: o que aconteceu com Manaus após vazamento de gás na zona industrial 

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Ministério Público do Amazonas (MPAM) deve apurar informações sobre as causas e eventual responsabilidade pelo sinistro

O incidente envolvendo o vazamento em um tanque estireno segue afetando a rotina da população de Manaus. Quase uma semana após o ocorrido, moradores da capital ainda relatam prejuízos e preocupações com a saúde, meio ambiente e gestão pública.

É o caso de uma moradora do Conjunto Nova República, Zona Sul, que prefere não se identificar. 

“Sinto-me vulnerável. […] situações como essa geram insegurança. Não sabemos quais poderiam ser as consequências caso ocorresse algo mais grave, como uma explosão de grandes proporções. Como estamos cercados por diversas indústrias, existe uma preocupação com os impactos que acidentes desse tipo podem causar.”

Um morador da Zona Centro-Sul da capital relembra as primeiras 48h após o início do vazamento de estireno.

“Eu estava sentindo dor de cabeça e a garganta seca, tossindo muito de manhã, sendo que não estava assim [na terça-feira]. Começou de madrugada essa tosse. E eu me sinto revoltado porque isso é um absurdo. É absurdo que crimes ambientais aconteçam nessa cidade e ninguém seja responsabilizado, sabe?”

O caso começou na quarta-feira (15), após um incidente com estireno  na unidade petroquímica da Innova, empresa localizada no Distrito Industrial de Manaus. Segundo comunicado da companhia, “o líquido sofreu elevação anormal de temperatura, liberando vapores de forma controlada pelos próprios dispositivos de segurança do equipamento”.

De acordo com o farmacêutico Yano Cesar, “o estireno é um composto químico, líquido e incolor utilizado como matéria-prima na produção de plástico, borrachas sintéticas, fibras de vidro, resina e isopor”. Ele também destaca que esse material é bastante volátil e que o seu vapor liberado é tóxico, por isso, exige muita cautela.

Em comunicado oficial, a Innova afirmou que “todo o resíduo proveniente recebeu destinação adequada […], de acordo com as normas ambientais vigentes” e ressaltou que “não houve incêndio, vazamento do produto líquido ou de efluentes para fora dos diques de contenção e, o mais importante, sem vítimas”.

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Ambulâncias foram chamadas para atender os trabalhadores prejudicados pelo produto químico. Imagem: Divulgação.

Ainda na quarta-feira (15), a Prefeitura de Manaus instaurou um Gabinete de Crise e colocou a capital em estado de alerta. Ao longo das  primeiras 48h após ocorrido, as atividades em pelo menos 2 escolas particulares e 16 unidades da rede municipal de ensino das Zonas Leste e Sul foram suspensas temporariamente, conforme dados da Prefeitura. Além disso, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) aponta que mais de cem pessoas buscaram atendimento médico na rede pública de saúde.

Na manhã de quinta-feira (16), a Zona Leste da capital registrou um índice 34,6 vezes acima do nível “péssimo” definido pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). No mesmo período, a Defesa Civil do Amazonas emitiu um alerta severo informando que o gás liberado seguia sendo monitorado, destacando o risco e as medidas de segurança. 

Segundo o Corpo de Bombeiros do Amazonas (CBMAM), o vazamento do gás foi contido no domingo (19), após dias trabalhando no resfriamento do tanque afetado. Em nota, a instituição destacou que seguirá monitorando até a desativação total do reservatório. 

De acordo com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (Crea-AM), em uma avaliação realizada no sábado (18), a estrutura não apresentava “evidências aparentes de fissuras, trincas ou rachaduras que indiquem risco de rompimento do tanque”.

Agora, o  Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) deve fiscalizar a desmobilização e retirada do reservatório, acompanhar a destinação adequada do material que ainda está armazenado no tanque e dos resíduos gerados no processo de resfriamento, assim como os procedimentos adotados para evitar novos impactos ambientais. 

Segundo equipes do Corpo de Bombeiro, Defesa Civil e técnicos da empresa, em uma análise da qualidade do ar na noite de domingo (19), a presença do gás estireno não foi detectada no entorno da empresa. As escolas e os serviços públicos que tiveram suas atividades suspensas, voltaram ao funcionamento nessa segunda-feira (20) e o monitoramento na região continuará de forma preventiva.

O dia do incidente

Além dos moradores da capital, trabalhadores de empresas localizadas no entorno da petroquímica Innova relataram mal-estar e, em alguns casos, demora na liberação. 

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Funcionário do Distrito Industrial recebe atendimento médico. Imagem: Divulgação.

Uma industriária, que prefere não se identificar, relatou:

“O pessoal do segundo turno passou muito mal e foram embora. Uma menina desmaiou. Também tinha gente com asma que passou super mal. Aí chegamos hoje de manhã [quinta-feira (16)] e o cheiro ainda estava forte, então fomos liberados.”

Outra industriária contou que precisou sair antes da liberação oficial por parte da empresa. “Eu já saí antes porque passei mal com dor de cabeça. Aí fui sentindo esse cheiro e horas depois tava com dor de cabeça e a pressão alterou”.

Após o início do vazamento, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), sugeriu às empresas do Polo Industrial de Manaus “que seja analisada, de acordo com as condições operacionais de cada empresa, a possibilidade de liberação do efetivo de trabalhadores potencialmente expostos”.

Já o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal-AM), afirmou em nota que entrou em contato com empresas localizadas no entorno do acidente e solicitou medidas como a liberação preventiva das pessoas que trabalham em áreas próximas ao incidente.

A moradora da Nova República relembra que não recebeu nenhuma orientação direta, contando com o apoio de vizinhos e familiares.

“Tomei conhecimento do ocorrido por meio de uma mensagem no grupo de moradores da rua onde moro. Uma vizinha perguntou se alguém estava sentindo um forte cheiro de gás. Pouco tempo depois, meu cunhado enviou uma mensagem informando que havia acontecido um incidente na Innova. A partir daí, começamos a acompanhar as informações e a entender a gravidade da situação. As informações que tive acesso vieram principalmente pelas redes sociais, como Instagram e WhatsApp, onde moradores compartilhavam notícias, vídeos e atualizações.”

Investigações 

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) iniciou, nessa segunda-feira (20), uma perícia nas instalações da empresa para entender e avaliar as circunstâncias do ocorrido. A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) também investiga o incidente.

Na sexta-feira (17), o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) autou a empresa em R$12,5 milhões por infração à legislação ambiental. Além disso, o Ministério Público do Amazonas (MPAM)  instaurou um procedimento para apurar o caso e reunir informações sobre as causas do acidente, os impactos ambientais e à saúde pública, assim como apurar eventual responsabilização pelo ocorrido.

1 comentário em “Atividades suspensas, hospitalizações e autuações milionárias: o que aconteceu com Manaus após vazamento de gás na zona industrial ”

  1. Avatar de ANTONIO JOSELITO COUTINHO VIANA
    ANTONIO JOSELITO COUTINHO VIANA

    Reportagem muito bem elaborada e com informações altamente esclarecedoras. Parabéns!! 👏👏👏

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