Cultura Negra presente na arte de Manaus

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Um olhar sobre a arte oriunda da cultura negra na capital amazonense

A subsistência da cultura negra na Amazônia se faz presente nas diferentes expressões artísticas, embora por muito tempo tenha sido invisibilizada por narrativas coloniais.

Em Manaus, essa herança é sentida nos festejos religiosos, nas tradições de matriz africana incorporadas ao cotidiano ribeirinho e na profunda mistura com elementos indígenas, que originou o que especialistas identificam como cultura afro-amazônica. Essa fusão aparece nas festas populares, na musicalidade marcada por batuques ancestrais e na produção artística que ressurge com força na cidade.

Entre os espaços que têm marcado esse movimento está a Exposição Amazônia Preta. A mostra, apoiada pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas(SEC), reúne obras de artistas negros da região e apresenta intervenções como “Gigantes da Memória”, que destaca 17 personalidades negras amazônicas em ilustrações na fachada do prédio.

Para o curador e pesquisador Marcelo Rufi, essas iniciativas são fundamentais para enfrentar o apagamento histórico da identidade negra na região.

Marcelo Rufi/Foto: Acervo pessoal

Marcelo Rufi/Foto: Acervo pessoal

“A cultura amazônica é formada por muitos povos, inclusive a população afro-amazônica, que às vezes é invisibilizada, de algumas formas, por acharem que na Amazônia não existem negros, que se confundem com algumas palavras coloniais, como é o caso do caboclo.”, afirmou. 

Vinícius do Carmo/Foto: Acervo Pessoal

Vinícius do Carmo/Foto: Acervo Pessoal

A trajetória de Vinícius começou nas escolas públicas por influência da mãe, pedagoga e também mulher preta, que sempre valorizou a cultura amazônica. Na infância, entre boi-bumbá, rap e cinema, ele descobriu nos ritmos afro-amazônicos sua principal referência.

“Meus primeiros passos com a cultura é um grande cargo chefe da minha mãe nas escolas e ela sempre valorizou muito a cultura local a nossa cultura amazônica de primeira” pontua Vinicius.

Atualmente atua como professor de cavaquinho e integra o grupo de samba-educadores Sambaqui, que leva rodas de samba para escolas e instituições, abordando educação antirracista por meio da música.

Adversidades

Para Marcelo Rufi, a invisibilidade e a falta de políticas públicas constantes ainda limitam a projeção da arte negra

 “A cultura negra, para ser mais vista, mais visível, precisa de políticas públicas. […] promover mais festivais, promover mais mostras, e que os espaços públicos estejam mais dispostos  a receber a cultura negra, a cultura afro-amazônica, não só no mês da consciência negra, em novembro, porque é o mês que tem mais visibilidade. Mas, o ano todo, porque o letramento racial deve acontecer o ano todo” afirma. 

Para ele, exposições e movimentos culturais só ganham força quando acompanhados de financiamento contínuo, espaços públicos acessíveis e ações concretas que não dependam exclusivamente de editais.

Mesmo assim, o cenário se transforma com coletivos e artistas que ocupam museus, ruas e instituições com narrativas sobre identidade e ancestralidade. Projetos como a Amazônia Preta  têm impulsionado novos olhares sobre a presença negra na capital.

A trajetória de Vinícius simboliza esse avanço. Ele pesquisa, ensina e produz música enquanto luta por mais espaço para a cultura afro-amazônica dentro e fora da universidade. 

“ Percebo que eu sou um pioneiro em estudos da Cultura Afro Amazônica dentro da academia. No futuro eu me vejo como um Etnomusicólogo, que é uma batalha densa para ter um curso de Etnomusicologia  aqui na Universidade. […]  A gente segue na luta, eu tenho boas esperanças pro futuro e espero ter uma boa juventude dando aula de música sempre no repertório brasileiro. Eu explico, eu dou a apreciação musical pra eles e a gente vai seguindo na luta com boas expectativas” conclui Vinicius.

Nesse cenário, entre jovens músicos, professores, coletivos artísticos e movimentos culturais, o que se vê em Manaus é o fortalecimento de uma arte que não quer apenas ocupar espaços, mas sim recontar a história da Amazônia sob uma perspectiva que sempre existiu. A cultura negra pulsa na capital, e sua arte, cada vez mais visível, transforma o modo como a cidade se reconhece.

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