Para a ativista indígena Txai Suruí, “[…] corremos o risco de continuar nas promessas, não nas transformações”
A COP30 foi oficialmente encerrada neste sábado (22/11) em Belém (PA), com um desfecho que mistura ganhos simbólicos, reivindicações não atendidas e uma certeza incômoda: a urgência climática segue maior do que as promessas firmadas. Apesar dos avanços no financiamento para adaptação, muitos países criticam a falta de compromissos mais sólidos para a transição dos combustíveis fósseis.
Durante a plenária final, as negociações se estenderam pela madrugada, sinalizando a dificuldade em fechar o chamado “Pacote de Belém”. Delegados passaram horas discutindo os textos finais, enquanto observadores alertavam que alguns dos pontos mais controversos ainda precisavam de consenso.
A crítica principal é que, embora o financiamento tenha avançado, o texto final evitou estabelecer um cronograma claro para a eliminação dos combustíveis fósseis, mantendo apenas termos genéricos sobre “reduzir gradualmente” petróleo, gás e carvão — muito aquém do que apontam os relatórios científicos.
O documento final da COP30 também omite qualquer menção explícita a combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, frustrando as expectativas de muitos países que defendiam um plano claro para a transição energética. A ausência de um “mapa do caminho” concreto para eliminar os fósseis foi apontada por críticos como uma concessão simbólica, sem “força vinculante”.
Por outro lado, os negociadores aprovaram o Mecanismo de Ação de Belém, iniciativa para fomentar uma transição justa (just transition) para energias mais limpas. Esse mecanismo foi saudado por ativistas e representantes indígenas como uma ferramenta importante para garantir que os processos de mudança energética levem em conta justiça social, direitos territoriais e a voz dos povos tradicionais.
Durante a plenária de encerramento, o presidente da COP30, André Aranha Corrêa do Lago, reconheceu as limitações do acordo: “Sabemos que alguns de vocês tinham maior ambição para alguns dos temas em jogo. Eu tentarei não decepcioná-los”, afirmou, numa fala que ecoou entre os negociadores mais otimistas.
Mesmo com avanços, a Greenpeace Brasil apontou o resultado como insuficiente. A diretora executiva da organização, Carolina Pasquali, declarou que os supostos “mapas do caminho” para descarbonização e proteção florestal têm “gosto de prêmio de consolação” em vez de ações efetivas.
Por sua vez, lideranças indígenas mantiveram alerta sobre o caminho após a COP. A ativista Txai Suruí comentou que a criação do Mecanismo de Ação de Belém é importante, mas “sem cronogramas claros para sair dos fósseis, corremos o risco de continuar nas promessas, não nas transformações”.
Em seu discurso de encerramento da COP30, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva admitiu que os resultados ficaram fora do ideal: “Enfim, progredimos, ainda que modestamente”.
A ministra reforçou a necessidade urgente de construir dois mapas do caminho, um para deter e reverter o desmatamento e outro para uma transição justa para longe dos combustíveis fósseis, “guiados pela ciência e inclusivos”.
Além disso, Marina celebrou a inclusão mais sólida de povos indígenas e comunidades tradicionais no processo climático e declarou que “a coragem para enfrentar a crise climática é resultado da persistência e esforço coletivos” e agradeceu aos participantes, dizendo que Belém, “o coração do planeta”, os recebeu com “nosso gesto de amor à humanidade e ao equilíbrio do planeta.”
Assim, a COP30 chega ao fim com um saldo “misto”: por um lado, o aumento no financiamento para adaptação e a institucionalização do Mecanismo de Ação representam vitórias; por outro, a falta de compromisso concreto com a eliminação de combustíveis fósseis e metas mais ambiciosas mantém viva a crítica de que o avanço foi mais simbólico do que transformador. Para muitos analistas, Belém deixa o recado de que o mundo quer mudança, mas ainda reluta em transformar o sistema que alimenta a crise.



