A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sediou a primeira defesa de doutorado integralmente indígena do Brasil com a tese “Pamüse: A força do sopro e da saliva entre os dessana wahri dihputiro porã no alto Rio Negro”. O trabalho é de autoria do Dr. Jaime Moura Fernandes, Jaime Diakara, da etnia dessana, e abarca temas como memória e transformação no mundo atual, a tradição dessana e a importância de uma antropologia indígena.
O evento ocorreu na manhã de quarta-feira (10), em formato híbrido, na sede do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Ufam (PPGAS/Ufam) e trouxe uma banca pluriétnica, composta pelos doutores João Paulo Barreto (Tukano), Silvio Barreto (Bará), Justino Rezende (Tuiuka), João Rivelino Barreto (Tukano) e Rosilene Fonseca (Piratapuya). A arguição foi realizada na língua Tukano para promover o diálogo entre os acadêmicos, mas com traduções pontuais para a língua portuguesa.
Para João Paulo Barreto, doutor em Antropologia e presidente da banca, este é um projeto de anos e que envolve o respeito mútuo entre diferentes etnias indígenas.
“A gente ficaria muito feliz quando nós, estudantes dessa Universidade, que está num território onde há a maior diversidade de povos, possa desenvolver pesquisas pra construir o pensamento amazônico. Eu sempre falo que é bom estudar o pensamento que vem de fora pra dentro. Hoje nós queremos fazer um pensamento de dentro pra fora e, neste sentido, nós somos todos responsáveis”.
Além do ineditismo, a defesa de Diakara é simbólica por outras razões. A escolha da língua Tukano, a composição do ambiente, a realização de cerimoniais indígenas ao longo do evento, a presença dos grafismos e o peixe cozido compartilhado ao final, mostram a necessidade de acolher as tradições e culturas dos povos tradicionais no meio acadêmico.
Na ocasião, o então doutorando, Jaime Diakara, celebrou a conquista junto do Colegiado Indígena do PPGAS (Colind/Ufam) e destacou que “isso que é educação diferenciada, não é sobre criar programa do governo”.

Neste sentido, o Dr. Gilton Mendes, professor do Departamento de Antropologia, afirma que é preciso “oxigenar” a ciência e a universidade.
“A Ufam está situada num lugar muito estratégico do ponto de vista global porque aqui, além de ser um lugar de potência da biodiversidade, pela questão ambiental, que todos nós já sabemos, é também pelos povos indígenas. E o que significa isso? Que aqui tem uma diversidade de pensamento, de perspectivas, de práticas milenares que os indígenas desenvolveram ao longo de mais de dez mil anos na Amazônia. […] E essa Amazônia foi construída por esses povos. […] A ciência é um modelo de conhecimento que sufoca as outras tradições de conhecimento, e a Ufam, por excelência, precisa repensar sua tradição, repensar o modelo científico, pra que ela possa ser uma universidade diferenciada, de verdade, pluriversal, nesse sentido.”
O Dr. João Paulo Barreto também falou sobre as expectativas para pesquisas futuras sobre o tema.
“Os próximos passos seriam a consolidação dessas políticas afirmativas mas levando em consideração, sobretudo, os sistemas de conhecimentos indígenas. Essa é a nossa pauta, que um dia possamos, minimamente, dar uma sistematizada sobre os nossos pensamentos, nossos conceitos, lógicas, pra dispor pra sociedade o pensamento indígena”.

O vídeo com a transmissão completa da defesa de doutorado está disponível no YouTube, através do link https://www.youtube.com/watch?v=Usrinz2ywZk.



